Nota do autor: Este artigo foi originalmente publicado no meu antigo blog em 8 de Agosto de 2008. Republico por ser ainda perfeitamente actual. Basta incluir o Facebook na equação. :)
Desde o advento e popularização do site de partilha de videos Youtube, que tenho vindo a notar uma mudança subtil mas real na Internet e, quem sabe, até no Mundo... Escuso de estar para aqui explicar o que é o Youtube porque qualquer um que tenha acesso à Internet saberá do que falo. É já algo inevitável, é como o Google, actual dono do site de videos, uma referência incontornável da Internet e da sociedade da informação...
Numa era como a que vivemos em que devido aos inúmeros gadgets electrónicos disponíveis para satisfazer até necessidades que não sabíamos que tinhamos, é fácil e até barato registar qualquer momento ou evento em formato multimédia, pronto a partilhar como o Mundo através da Internet. O fenómeno do Youtube e de sites como Hi5, Myspace, etc... só é possível graças à revolução tecnológica que colocou o multimédia nas mãos de todos. Bem, pelo menos aqueles que vivem em países considerados desenvolvidos...
No entanto, não é sobre as maravilhas da tecnologia de hoje que vim para aqui falar, mas sim de um fenómeno que se viu transferido de fórums online, blogs e afins e que agora se instalou definitivamente no Youtube e sites semelhantes. Não é difícil para qualquer cibernauta enquanto navega por qualquer site se deparar com uma opção simples e perfeitamente inóqua: a opção de deixar um comentário. Enfim, escrevo isto num blogue e qualquer um poderá ter a oportunidade de comentar sobre o que estou a escrever agora. O fenómeno do comentário está presente em todo o lado e dá azo muitas vezes a acesos conflitos de palavras que se assemelham a autênticas guerras, onde se misturam posições extremadas, posições moderadas e posições assumidas somente para colocar mais "achas na fogueira".
Que não me entendam mal.. Sou a favor da liberdade de expressão como um direito fundamental da Humanidade e acho que a opção de permitir comentários é uma forma excelente de conseguir feedback e de vislumbrar qual a opinião dos nossos pares. Novamente, a maior prova é estar a falar sobre isto através de um blog, onde escolho exprimir a minha opinião sobre coisas diversas.
No Youtube, e acredito que em outros sites do género também assim aconteça, a possibilidade de comentar tem, a meu ver, criado a oportunidade da existência de autênticas guerras privadas entre posições extremadas em relação a questões que parecerão banais face aos problemas que assolam o Mundo. Digo que são privadas porque estão contidas na esfera própria do sítio onde são travadas.
A título de exemplo, falarei de duas de que tive conhecimento enquanto navegava no Youtube em busca de videos de música, quer de bandas que aprecio, quer de outras que desejava conhecer melhor. Qual o meu espanto quando descobri que atrever-me a ler os comentários sobre os videos em questão era igual a aventurar-me num campo de batalha, que se trava em página após página de comentários. O mesmo se passa em essencialmente todos os videos mais populares referentes a essas bandas, existindo até alguns casos em que videos foram criados como "arma" nessas guerras... Prometo ser breve na exemplificação, pois cada uma seria certamente merecedora de um artigo por si mesma.
Deparei-me com a primeira quando procurava videos da banda britânica Muse, da qual já tinha ouvido falar, mas que só ouvi com atenção quando cá vieram no Rock In Rio 2008. Ao ler os comentários, deparo-me com uma autêntica batalha entre duas facções: uma que defendia que os Muse eram altamente inspirados pelo trabalho dos Radiohead e que por isso não passavam de clones, e outra que defendia os Muse como banda inovadora e com valor próprio. Apesar de encontrar alguns comentários que procuravam moderar a questão, a grande maioria defendia opiniões extremas em que o insulto quer aos comentadores, quer a ambas as bandas eram o mais comum. Encontrei isto em muitos videos de Muse e até em alguns dos Radiohead. Cá pra mim, sou grande fã de Radiohead já alguns anos e quando ouvi os Muse no Rock in Rio, imediatamente reparei nas semelhanças. Se foram de facto buscar inspiração aos Radiohead, não vejo que mal haverá nisso. Afinal, somos todos produtos das nossas experiências... Certamente não seria necessário debater tal questão com os exageros que lá encontrei.
O segundo exemplo encontrei enquanto procurava videos da banda Nightwish. Aqui a questão era outra, completamente diferente mas as posições dos comentadores eram se possível ainda mais extremadas. Para quem não sabe, após longos anos de carreira e vários albuns publicados, o líder da banda finlandesa e os restantes membros decidiram despedir a vocalista Tarja Turunen devido a divergências e no album de 2006, Dark Passion Play, surgiram já com a nova vocalista, Anette Olzon. Na minha opinião, e tendo tomado contacto com a discografia completa da banda recentemente, apesar de ambas terem estilos e capacidades vocais diferentes, posso dizer que aprecio o trabalho de ambas. No entanto, em qualquer video dos Nightwish no Youtube degladiam-se as facções que defendem quer uma, quer outra das vocalistas e especulam sobre as razões da mudança. Neste caso, repetem-se os videos colocados por vários utilizadores a comparar as vozes de ambas, autênticas "acendalhas" para uma questão que já leva tanta gente a extremos.
A meu ver, não há grande mal para o Mundo nestas pequenas "guerras" que se travam em fórums como o Youtube. De certa forma, acabam por ser uma forma não só de liberdade de expressão mas também de aliviar o stress do dia a dia. Só lamento é que muitas das vezes o que podia ser um debate salutar acabe poluído por exageros desnecessários e pelo fenómeno do "trolling".
Um "troll" é um monstro da mitologia Nórdica, conhecido pelas suas feições horrendas e a prática de se alimentar de humanos. Na terminologia da Internet, o "trolling", ou o agir como um "troll", é sinónimo de participar em fórums ou sites de comentários, assumindo posições extremas, muitas das vezes sem qualquer fundamentação, com o objectivo claro de criar e/ou incendiar conflitos e depois extrair satisfação em ver o caos desenrolar... O "troll" nestes casos geralmente não tem qualquer interesse na questão em debate, intervindo apenas com o intuito de levar quem tem interesse genuíno na questão a assumir posições exaltadas. O pior é que nem sempre é fácil identificar um "troll" em acção, e assim, muitas vezes, debates simples, transformam-se em autênticas "guerras" online.
A meu ver, isto sim é que é de reprovar, pois além de ser uma total falta de respeito pelo semelhante, é efectuado apenas com o intuito de encontrar diversão na irritação dos outros e com total falta de remorsos. É por coisas como estas que hoje em dia quando navego pelo Youtube e sites semelhantes, evito ler os comentários. Nunca se sabe se ao baixar a página no browser não se cai num campo de batalha e se dá de caras com um "troll" a ser alimentado... Afinal, sempre ouvi dizer que quando se vai ao Zoo não se deve alimentar os animais...
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