terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sem tempo para escrever...

Caros amigos e leitores, só para esclarecer que iniciei nova actividade profissional há dias e que devido a um horário complicado e à natureza extenuante da mesma, não tenho muito tempo para dedicar ao blog. 

Devido a isso, novos artigos surgirão consoante a disponibilidade que tiver, mas sem a frequência anterior. 

Cumprimentos, 

Artur Caetano

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A revisão constitucional e o oportunismo do PSD

Tem sido notório nos últimos tempos o surgimento sucessivo de novas polémicas na política nacional. Quer mesmo parecer que mal uma questão comece a cair no esquecimento, logo uma nova questão tem de surgir. Desta feita e pela iniciativa do Presidente do PSD, o Dr. Pedro Passos Coelho, a nova polémica que se criou foi a propósito da pré-proposta de revisão constitucional que o seu partido revelou há dias.

Já desde a campanha para a liderança do partido que o Dr. Passos Coelho manifestava a sua intenção de elaborar uma revisão do texto da constituição, tendo finalmente revelado as linhas gerais do que pretende. As grandes questões que têm provocado reacções negativas especialmente junto dos partidos de Esquerda, mas também no seu próprio partido, são as questões que se prendem com a alteração do regime de despedimentos, a escola e saúde públicas, e a alteração dos poderes do Presidente da República e da Assembleia da República.

A propósito do regime de despedimentos, o Presidente do PSD pretende uma maior flexibilidade eliminando a figura do despedimento por justa causa e consagrando o despedimento por razão atendível. Diz o mesmo que se trata de uma medida para combater a precariedade e promover a segurança no trabalho, o que a mim me parece muito estranho, pois mesmo como leigo que sou em questões de Direito, me parece que razão atendível pode ser qualquer coisa. O conhecido constitucionalista Jorge Miranda parece concordar comigo, pois já declarou que este termo permite o despedimento por qualquer razão, não devendo por isso ser aprovada esta mudança. Neste ponto pergunto eu: como pode haver segurança no trabalho se podemos ser despedidos a qualquer momento? Quer-me parecer que o combate à precariedade pretendido passa por mudar de uma situação em que alguns são precários para outra em que todos são precários.

Acerca da escola e da saúde pública, a grande mudança defendida é que se retire do texto da constituição o termo “tendencialmente gratuita”, pretendendo o PSD que os que podem pagar paguem e os que não podem, não paguem, argumentando ser essa alteração em nome da justiça e equidade. No entanto, quer-me parecer que neste ponto o objectivo passa por adoptar a defesa de políticas populistas, que até podem parecer muito positivas em teoria mas que na prática iriam contribuir para o perpetuar e aumentar das assimetrias que já existem na nossa sociedade. Além disso, trata-se de um claro ataque ao Estado Social e ao princípio de universalidade da escola e da saúde públicas, seguindo na linha do que os partidos de Direita têm feito um pouco por toda a Europa. Assim tem acontecido pois os mesmos defendem que as prestações sociais dos Estados são as grandes responsáveis pela crise económica quando é claro que esta foi provocada pela irresponsabilidade dos grandes agentes económicos e da banca.

Finalmente, no que toca às alterações propostas acerca dos poderes do Presidente da República e da Assembleia é que se pode ver o sentido oportunista do Dr. Passos Coelho. Em primeiro lugar pretende o aumento dos mandatos do Governo e do Presidente. Depois, pretende que seja mais fácil para o Presidente demitir o Governo e que a Assembleia da República possa mudar o Primeiro Ministro através do que chama de uma moção de censura construtiva. Na minha opinião, a intenção aqui é óbvia. Pedro Passos Coelho já sente a vitória do seu partido nas próxima eleições e daí pretender o aumento dos mandatos. Quanto às alterações aos poderes, parecem-me ser mais uma tentativa de derrubar a figura do actual Primeiro Ministro, dotando a Presidência e a Assembleia de poderes para tal.

Antes de passar ao próximo ponto deste artigo, importa primeiro ressalvar que a proposta tornada pública é ainda uma pré-proposta, podendo vir a ser sujeita a alterações. A análise até aqui efectuada é portanto baseada naquilo que foram as ideias iniciais que o PSD revelou, tendo presente a possibilidade de estas virem a ser alteradas até uma eventual apresentação perante a Assembleia.

Para terminar gostaria de deixar uma reflexão e um alerta. Quando ouvi pela primeira vez nas notícias estas propostas de revisão constitucional devo confessar que fiquei surpreendido de várias formas. Em primeiro lugar, fiquei atónito perante tamanhos ataques a questões que são primárias à vida dos portugueses, como é o caso do trabalho, da escola e da saúde públicas, em que as propostas apresentadas surgem como nada mais do que uma diminuição dos direitos de cada um e um aumentar das disparidades e desigualdades que ainda persistem na nossa sociedade. Em segundo lugar, não compreendi qual a razão que levava o PSD a cometer o que me pareceu um “tiro no pé”, pois atacando o que a população vê como direitos fundamentais, corria sério risco de perder votos. Mais, interroguei-me porque avançaria para esta revisão constitucional, consagrando medidas que nunca poderiam ser aceites pelo Partido Socialista, por serem totalmente opostas à sua ideologia.

E é aqui, caros leitores e leitoras, que se pode ver a inteligência e o oportunismo de Pedro Passos Coelho. Sabendo que o PS e a Esquerda jamais aceitarão estas propostas, consegue assim demarcar de vez a diferença do PSD face ao PS, contrariando aqueles que têm acusado o seu partido de fazer parte de um “bloco central”. Consegue ainda isolar mais o Partido Socialista, deixando-o amarrado a uma governação difícil e sem apoios, podendo a partir de agora resguardar-se no argumento de que o PS não esteve disponível para negociar a revisão constitucional. Quer-me parecer que foi esta a estratégia que esteve por trás destas propostas, mesmo correndo o risco de perder alguns votos, tal é a segurança do PSD na sua vitória nas próximas eleições.

Nesta altura recordo-me da expressão que tenho ouvido muitas vezes nos últimos tempos: “se o PS diz mata, o PSD diz esfola”. Assim, não posso deixar de fazer aqui o alerta. Nas próximas eleições legislativas votem PSD e depois veremos qual o resultado disso. Cá para mim, é cada vez mais claro que o voto no PSD nada mais é do que um voto no oportunismo, na ânsia de poder, nos jogos políticos e na defesa dos poderosos e dos interesses, em detrimento dos que mais necessitam de apoio do Estado. Tenho dito.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A questão do género: A luta por uma igualdade de direitos e oportunidades

Permitam-me os leitores ser já bem claro sobre a minha posição sobre a questão da igualdade de direitos entre homens e mulheres, aquilo que chamo no título de a questão do género. Considero-me uma pessoa de mente aberta e já várias vezes falei neste blog sobre a evolução humana e é neste sentido que declaro o meu repúdio e profundo desgosto por ser ainda necessário falar sobre este assunto, ou seja, o facto de existir ainda sequer uma “questão” a ser debatida.

Digo isto porque sou da firme opinião de que apesar das óbvias diferenças fisiológicas, não existe qualquer fundamento ou razão para existir uma diferenciação nos direitos e oportunidades concedidos conforme o sexo. Mais afirmo que me irrita profundamente ouvir falar em coisas como Declaração Universal dos Direitos do “Homem” ou o Dia Internacional da Mulher, por exemplo. Defendendo e acreditando piamente nos direitos à dignidade e igualdade de toda a Humanidade, não posso aceitar que o documento onde se afirmam os direitos fundamentais de cada um seja assim traduzido, dando a ideia de que só abrange o sexo masculino. Na mesma linha, também afirmo que somente quando não existir Dia Internacional da Mulher é que a igualdade de direitos e oportunidades estará consagrada. È óbvio que é necessário agora, como lembrança do combate que ainda é necessário fazer, mas o objectivo será que deixe de o ser e sinceramente gostaria de ter a satisfação de comemorar o último.

Terão certamente compreendido que este é um assunto que tem para mim grande importância. Assim o é porque tive a infelicidade de ter sido educado para ser mais um machista, homofóbico, misógino e racista, sem qualquer respeito pelos direitos das mulheres assim como de qualquer um que fosse diferente do que a sociedade definisse como a norma. Felizmente que tive também a oportunidade e o discernimento de aprender a respeitar a diferença e de reconhecer que não é por alguém ser diferente de mim que devo agir de forma discriminatória, e assim fugir ao papel que a sociedade me reservava. Além disso, estou também plenamente consciente da realidade histórica que nos conta das campanhas movidas por homens ao longo de milhares de anos para denegrir as mulheres com o objectivo de reduzir a sua importância e poder na família e na sociedade.

Não tenho qualquer dúvida que a discriminação de que as mulheres foram vítimas ao longo da História se deveu a questões de poder. Aliás, afirmarei mesmo que as grandes discriminações históricas e actuais tiveram e têm sempre por fundamento aumentar o poder de quem discrimina face ao que é discriminado. Tal como a discriminação racial tem levado à escravatura e ao genocídio, a discriminação sexual tem levado à submissão da mulher, sempre culminando no aumentar do poder de quem controla a discriminação. O Holocausto judaico na 2ª Guerra Mundial e a forma como as mulheres são retratadas na Bíblia são óptimos exemplos.  

A questão da igualdade de género é um problema social e criado pela sociedade. Milhares de anos de História e a evolução das sociedades humanas levaram à criação de modelos de vida que colocaram as mulheres em inferioridade perante os homens criando a falsa ideia de um “sexo frágil”. A origem deste fenómeno será difícil de situar no tempo mas remonta certamente às primeiras sociedades tribais humanas, onde a maior força física dos homens os terá colocado em situação de poder e supremacia. Ao longo dos tempos, e à medida da evolução das sociedades essa supremacia foi sendo afirmada de formas cada vez mais sofisticadas, criando-se uma situação em que os papéis de homens e mulheres ficaram claramente definidos, em prejuízo das mulheres. Não nego que houve sociedades em que a realidade era diferente, mas acredito que terão sido uma minoria. Caso contrário, esta situação poderia já nem existir.

Sendo um problema social, deve ser a sociedade a resolvê-lo. E assim tem sido feito nas sociedades dos países mais desenvolvidos, tendo o século XX sido marcado grandes conquistas no sentido da igualdade entre géneros. No entanto ainda há muito a fazer pois apesar de muitas sociedades já consignarem a igualdade de direitos nas suas leis fundamentais, a igualdade de oportunidades está ainda muito longe de ser a regra. Falta ainda também uma revolução nas mentalidades que consagre o respeito mútuo entre mulheres e homens e que permita o fim de aberrações como a violência doméstica e a mutilação genital feminina. Finalmente, falta também alargar esta luta e estes direitos a sociedades um pouco por todo o mundo que ainda estão sob o domínio de tradições milenares que promovem a desigualdade.

Por mim, tenho o maior respeito pelas mulheres e apesar da educação que me foi imposta, sempre as tratei como iguais. Neste sentido, acredito que o caminho do futuro, no que a esta questão se reporta, passa pelo aceitar das diferenças que existem e caminhar para uma igualdade de direitos e oportunidades alicerçada no respeito mútuo. Assim, espero que as conquistas do século XX continuem no presente século e que as novas gerações deste mundo globalizado possam levar esta luta a bom termo, o que me parece estar já a acontecer. 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O estigma da licenciatura: como perder um emprego em segundos

No contexto actual de conjuntura de crise económica e financeira que se vive em todo o Mundo, a questão do emprego, mais concretamente a questão do desemprego, é um assunto que está definitivamente na ordem do dia e que é alvo de grande preocupação pela sociedade. Não sendo economista e julgando ser do conhecimento geral os efeitos nefastos de uma alta taxa de desemprego não só a nível económico mas essencialmente a nível social, tentarei focar este artigo numa questão que me toca muito pessoalmente e que muitas vezes é esquecida nos debates sobre o assunto: o desemprego de longa duração dos licenciados.

Neste sentido, considero que a situação que infelizmente existe muito neste país encontra-se já plenamente clara pelo título deste artigo. Cada vez mais, e contrariando a tendência geral de que com mais qualificações mais fácil é obter um emprego, surge uma minoria de licenciados no desemprego, na qual infelizmente me incluo, para quem o facto de possuir uma licenciatura é aparentemente não uma mais valia mas sim um estigma, que prejudica gravemente a procura activa de emprego. Nestes casos, muitas vezes basta mencionar que se é licenciado para se poder observar uma mudança no semblante de quem entrevista que é claramente indicativa de que o emprego já era. O mesmo se passa quando se envia um curriculum vitae pela internet em que a sensação que tenho é que basta ler nas habilitações “Licenciatura em...” para que o candidato seja imediatamente descartado.

Quero no entanto deixar perfeitamente claro que as pessoas nesta situação são uma minoria, como é fácil de observar pelas estatísticas de emprego e por estudo existentes que referem que os licenciados são os que menos tempo têm de procurar até encontrar um emprego. As pessoas que como eu integram este grupo são na sua maioria pessoas com cursos desajustados ao mercado de trabalho, com cursos de difícil penetração nas suas áreas específicas ou pessoas que completaram o ensino superior tardiamente ou por variadas circunstâncias tiveram mais dificuldade em se empregar. A questão é que agora e especialmente nesta conjuntura de crise existe uma dificuldade acrescida à qual se junta um claro desrespeito do patronato por quem investiu anos da sua vida, muitas vezes com grandes sacrifícios, na sua qualificação profissional.

Muito do que falo aqui advém da minha experiência pessoal assim como de conversas com infelizmente demasiados amigos em situações semelhantes. No meu caso, sendo licenciado em Relações Internacionais, um curso que até não é nada mau, a grande dificuldade é a penetração no mercado de trabalho, sendo as saídas poucas apesar de bastante aliciantes. O que pergunto é, se eu tenho tido tamanhas dificuldades, o que se passará então com quem tem cursos menos reconhecidos?

Infelizmente, e para cada vez mais portugueses, mesmo os que possuem habilitações que à partida garantiriam um emprego fácil, havendo fracas possibilidades de encontrar emprego na sua área de formação, a única solução que resta é recorrer ao emprego menos qualificado. O problema é que é aqui que entra o estigma da licenciatura. Sendo geralmente empregos de baixa remuneração e de baixa exigência técnica e de qualificações, os licenciados partem em desvantagem perante pessoas com menos habilitações pelo simples facto de serem licenciados.

Tendo concorrido a dezenas de empregos deste género nos últimos meses, muitos deles através do site Netemprego.gov, na grande maioria dos casos nem sequer recebi a carta para me apresentar perante a entidade patronal que o IEFP emite nestas situações. Tendo questionado o Centro de Emprego de Santarém acerca da situação, fui informado que muitas vezes eles fazem uma pré-selecção dos candidatos às escassas vagas que vão surgindo, e foi notório nessa comunicação e em contactos pessoais com funcionários do mesmo, que dão clara preferência a quem recebe subsídios e que discriminam quem tem habilitações a mais. Foi-me mesmo dito por uma funcionária do IEFP de Santarém numa apresentação anual que não tinham emprego para mim. É no mínimo caricato. E tenho a certeza que mais existirão em situações semelhantes.

Posso mesmo afirmar que nos últimos dois anos fui convocado apenas três vezes pelo IEFP, uma delas para apresentar uma formação e duas vezes por engano... Se não fosse a minha iniciativa própria de procurar activamente emprego quer por candidaturas espontâneas, quer respondendo a anúncios, bem podia esperar sentado que me resolvessem o problema. E mesmo procurando, se for para empregos menos qualificados sou sempre prejudicado por ser licenciado.

Como muitos da minha geração também eu já pensei em deixar de dizer que sou licenciado para tentar assim encontrar emprego mais facilmente. No entanto, estou convicto que tal estratégia não poderia de modo algum funcionar, pois qualquer patrão poderia facilmente detectar uma omissão de quase dez anos na minha experiência profissional. Ao fim ao cabo, sem a licenciatura, sem os estágios que efectuei e sem as formações do IEFP, parece que andei esse tempo “à sombra da bananeira”. Assim, prefiro não omitir as qualificações que muitos sacrifícios me custaram a obter e declarar em candidaturas a empregos que exigem menos qualificação que não me importo minimamente de trabalhar em áreas que nada têm a ver com a minha formação. Afinal, o que procuro é trabalho e emprego e não um “Dr.” atrás do nome, não obstante continuar a procurar na minha área.

Fica o desabafo e o alerta. Espero que no futuro este tipo de situações possam vir a mudar e que as mentalidades do patronato alcancem que um funcionário bem formado e qualificado é sempre uma mais valia para uma empresa. Até então, a luta continua...

As guerras privadas do Youtube e o "Trolling"

Nota do autor: Este artigo foi originalmente publicado no meu antigo blog em 8 de Agosto de 2008. Republico por ser ainda perfeitamente actual. Basta incluir o Facebook na equação. :)


Desde o advento e popularização do site de partilha de videos Youtube, que tenho vindo a notar uma mudança subtil mas real na Internet e, quem sabe, até no Mundo... Escuso de estar para aqui explicar o que é o Youtube porque qualquer um que tenha acesso à Internet saberá do que falo. É já algo inevitável, é como o Google, actual dono do site de videos, uma referência incontornável da Internet e da sociedade da informação...

Numa era como a que vivemos em que devido aos inúmeros gadgets electrónicos disponíveis para satisfazer até necessidades que não sabíamos que tinhamos, é fácil e até barato registar qualquer momento ou evento em formato multimédia, pronto a partilhar como o Mundo através da Internet. O fenómeno do Youtube e de sites como Hi5, Myspace, etc... só é possível graças à revolução tecnológica que colocou o multimédia nas mãos de todos. Bem, pelo menos aqueles que vivem em países considerados desenvolvidos...

No entanto, não é sobre as maravilhas da tecnologia de hoje que vim para aqui falar, mas sim de um fenómeno que se viu transferido de fórums online, blogs e afins e que agora se instalou definitivamente no Youtube e sites semelhantes. Não é difícil para qualquer cibernauta enquanto navega por qualquer site se deparar com uma opção simples e perfeitamente inóqua: a opção de deixar um comentário. Enfim, escrevo isto num blogue e qualquer um poderá ter a oportunidade de comentar sobre o que estou a escrever agora. O fenómeno do comentário está presente em todo o lado e dá azo muitas vezes a acesos conflitos de palavras que se assemelham a autênticas guerras, onde se misturam posições extremadas, posições moderadas e posições assumidas somente para colocar mais "achas na fogueira".

Que não me entendam mal.. Sou a favor da liberdade de expressão como um direito fundamental da Humanidade e acho que a opção de permitir comentários é uma forma excelente de conseguir feedback e de vislumbrar qual a opinião dos nossos pares. Novamente, a maior prova é estar a falar sobre isto através de um blog, onde escolho exprimir a minha opinião sobre coisas diversas.

No Youtube, e acredito que em outros sites do género também assim aconteça, a possibilidade de comentar tem, a meu ver, criado a oportunidade da existência de autênticas guerras privadas entre posições extremadas em relação a questões que parecerão banais face aos problemas que assolam o Mundo. Digo que são privadas porque estão contidas na esfera própria do sítio onde são travadas.

A título de exemplo, falarei de duas de que tive conhecimento enquanto navegava no Youtube em busca de videos de música, quer de bandas que aprecio, quer de outras que desejava conhecer melhor. Qual o meu espanto quando descobri que atrever-me a ler os comentários sobre os videos em questão era igual a aventurar-me num campo de batalha, que se trava em página após página de comentários. O mesmo se passa em essencialmente todos os videos mais populares referentes a essas bandas, existindo até alguns casos em que videos foram criados como "arma" nessas guerras... Prometo ser breve na exemplificação, pois cada uma seria certamente merecedora de um artigo por si mesma.

Deparei-me com a primeira quando procurava videos da banda britânica Muse, da qual já tinha ouvido falar, mas que só ouvi com atenção quando cá vieram no Rock In Rio 2008. Ao ler os comentários, deparo-me com uma autêntica batalha entre duas facções: uma que defendia que os Muse eram altamente inspirados pelo trabalho dos Radiohead e que por isso não passavam de clones, e outra que defendia os Muse como banda inovadora e com valor próprio. Apesar de encontrar alguns comentários que procuravam moderar a questão, a grande maioria defendia opiniões extremas em que o insulto quer aos comentadores, quer a ambas as bandas eram o mais comum. Encontrei isto em muitos videos de Muse e até em alguns dos Radiohead. Cá pra mim, sou grande fã de Radiohead já alguns anos e quando ouvi os Muse no Rock in Rio, imediatamente reparei nas semelhanças. Se foram de facto buscar inspiração aos Radiohead, não vejo que mal haverá nisso. Afinal, somos todos produtos das nossas experiências... Certamente não seria necessário debater tal questão com os exageros que lá encontrei.

O segundo exemplo encontrei enquanto procurava videos da banda Nightwish. Aqui a questão era outra, completamente diferente mas as posições dos comentadores eram se possível ainda mais extremadas. Para quem não sabe, após longos anos de carreira e vários albuns publicados, o líder da banda finlandesa e os restantes membros decidiram despedir a vocalista Tarja Turunen devido a divergências e no album de 2006, Dark Passion Play, surgiram já com a nova vocalista, Anette Olzon. Na minha opinião, e tendo tomado contacto com a discografia completa da banda recentemente, apesar de ambas terem estilos e capacidades vocais diferentes, posso dizer que aprecio o trabalho de ambas. No entanto, em qualquer video dos Nightwish no Youtube degladiam-se as facções que defendem quer uma, quer outra das vocalistas e especulam sobre as razões da mudança. Neste caso, repetem-se os videos colocados por vários utilizadores a comparar as vozes de ambas, autênticas "acendalhas" para uma questão que já leva tanta gente a extremos.

A meu ver, não há grande mal para o Mundo nestas pequenas "guerras" que se travam em fórums como o Youtube. De certa forma, acabam por ser uma forma não só de liberdade de expressão mas também de aliviar o stress do dia a dia. Só lamento é que muitas das vezes o que podia ser um debate salutar acabe poluído por exageros desnecessários e pelo fenómeno do "trolling".

Um "troll" é um monstro da mitologia Nórdica, conhecido pelas suas feições horrendas e a prática de se alimentar de humanos. Na terminologia da Internet, o "trolling", ou o agir como um "troll", é sinónimo de participar em fórums ou sites de comentários, assumindo posições extremas, muitas das vezes sem qualquer fundamentação, com o objectivo claro de criar e/ou incendiar conflitos e depois extrair satisfação em ver o caos desenrolar... O "troll" nestes casos geralmente não tem qualquer interesse na questão em debate, intervindo apenas com o intuito de levar quem tem interesse genuíno na questão a assumir posições exaltadas. O pior é que nem sempre é fácil identificar um "troll" em acção, e assim, muitas vezes, debates simples, transformam-se em autênticas "guerras" online.

A meu ver, isto sim é que é de reprovar, pois além de ser uma total falta de respeito pelo semelhante, é efectuado apenas com o intuito de encontrar diversão na irritação dos outros e com total falta de remorsos. É por coisas como estas que hoje em dia quando navego pelo Youtube e sites semelhantes, evito ler os comentários. Nunca se sabe se ao baixar a página no browser não se cai num campo de batalha e se dá de caras com um "troll" a ser alimentado... Afinal, sempre ouvi dizer que quando se vai ao Zoo não se deve alimentar os animais...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Mundial 2010 e a prepotência da FIFA

Com ainda muito futebol para se ver no Mundial 2010 é lamentável que numa fase tão precoce da competição já seja possível concluir que este evento vai ficar definitivamente marcado pela teimosia e prepotência da FIFA. É lamentável ainda que o orgão máximo do futebol mundial continue a permitir a ocorrência de situações vergonhosas que nada beneficiam o desporto. Refiro-me concretamente aos casos das polémicas arbitragens nos jogos Inglaterra – Alemanha e Argentina – México, sem esquecer também as controvérsias que rodeiam a bola oficial e a irritantes vuvuzelas.

Começando pelos jogos deste fim de semana, marcados por erros de arbitragem absurdos com clara influência no decorrer dos acontecimentos, irei ao longo deste artigo demonstrar como a FIFA, concretamente na pessoa do seu presidente, o ultra-conservador e retrógrado Joseph Blatter, tem vindo a recusar qualquer contributo para a evolução positiva do futebol e com isso criado situações claramente injustas e incríveis.

Os casos de arbitragem a que me refiro são um óptimo exemplo do que digo. No jogo Inglaterra-Alemanha, numa situação em que a Alemanha vencia por 2-1, um jogador inglês remata contra a trave levando a bola a bater quase meio metro para lá da linha de baliza e depois sair. Todos viram que foi golo excepto a equipa de arbitragem e os alemães que naturalmente se fizeram de cegos. Perante esta injustiça, a equipa inglesa desmoralizou e acabou por sofrer mais dois golos, fixando o resultado em 4-1 a favor da Alemanha.

No jogo Argentina – México aconteceu uma situação semelhante. Carlos Tevez, em clara situação de fora de jogo, marcou o 1º golo da partida, validado pelo árbitro seguindo a indicação do seu auxiliar perante a incredulidade da equipa mexicana. O mais fantástico é que todo o estádio viu o fora de jogo através dos ecrãs gigantes, incluindo a equipa de arbitragem, mas o certo é que a atribuição do golo se manteve. Novamente, a equipa prejudicada acusou o choque e sofreu logo de seguida um golo oferecido pela sua defesa, claramente incapaz de reagir ao que se tinha passado. O resultado final acabou 3-1 a favor da Argentina. Salvou-se desta vergonha o fantástico 2º golo de Carlos Tevez, talvez o melhor golo do mundial até agora.

Em ambos os jogos uma decisão errada da arbitragem alterou profundamente o decorrer dos acontecimentos e contribuiu para a vitória das equipas beneficiadas. Sem tirar o mérito à Alemanha e à Argentina, é no entanto certo que esta situação os favoreceu. O que para mim é fantástico é que num Mundial transmitido em HD e 3D, com possibilidade de interagir com a emissão das mais variadas formas, com software de análise de jogo avançado que permite registar variadas estatísticas, não haja ainda uma forma de aproveitamento das novas tecnologias que permita combater este género de injustiças e repor a verdade desportiva. E porque é que não há? Porque o senhor Joseph Blatter não quer, porque as tecnologias até existem.

Sinceramente não vejo qual o problema de consultar as repetições televisivas em situações difíceis de decidir. Não digo que se pare o jogo a toda a hora para confirmar decisões visionando as imagens, mas pelo menos em situações de golo ou de grande penalidade isso podia ser feito e na maior parte dos casos, em poucos segundos. Também não compreendo qual a dificuldade de ter um microchip na bola e sensores na baliza para confirmar a existência de um golo, entre outras possibilidades tecnológicas.

O que é certo é que se o futebol não evolui usando as tecnologias ao seu dispor é porque a FIFA não quer. Aliás, quer parecer que a organização não está disposta a aceitar qualquer tipo de sugestão de como reger o futebol. A grande prova é a questão das vuvuzelas, consideradas por especialistas médicos como um perigo para a audição e criticadas por jogadores, treinadores, espectadores e mesmo membros da FIFA como perturbadoras da concentração requerida em alta competição, e que Joseph Blatter se recusa a banir dos estádios. E nem me vou alongar sobre os problemas com a bola oficial, que mais parece uma bola comprada no supermercado da esquina.

A única conclusão a que posso chegar ao considerar estas questões é que tudo isto se passa porque o senhor presidente da FIFA governa o organismo com mão de ferro e é averso a qualquer opinião que não a sua. O mais grave é que aparentemente pretende recandidatar-se ao cargo. Fica aqui a sugestão: reforme-se e deixe o destino do futebol nas mãos de quem o possa levar para a renovação necessária, melhorando o espectáculo e salvaguardando a verdade desportiva.

sábado, 26 de junho de 2010

Barack Obama: A melhor esperança da Humanidade?

Inicio este artigo com um desafio, quem sabe uma provocação. Será Barack Obama a melhor esperança da Humanidade num momento critico da história como é o que vivemos? Por certo esta pergunta poderá parecer descabida a muitos, talvez até ridícula. Talvez muitos se interroguem como pode um só homem assumir tal papel e ser o motor de uma mudança muito necessária na forma como vemos e vivemos o nosso mundo. No entanto, foi com essa atitude que muitos um pouco por todo o mundo encararam a eleição de Barack Obama para o cargo de Presidente dos EUA há cerca de ano e meio.

Apoiado por uma campanha magistralmente regida que soube quebrar com o tradicionalismo eleitoral dos EUA, aproveitar as potencialidades das novas tecnologias e gerar uma massa critíca de apoio de base local motivada e activa, Obama surgiu perante o seu país e até perante o Mundo como uma figura messiânica com a capacidade de mudar o rumo a um barco que caminhava inexoravelmente para o abismo. A sua campanha e a sua figura criaram um mito de tal forma intenso que espalhou uma onda de esperança enorme que aproveitando a supremacia cultural americana se estendeu a todos os cantos do Mundo. Gerou um consenso tão grande em torno de si que levou a comunidade internacional a comemorar a sua vitória como se da eleição de um Presidente do Mundo se tratasse.

Os problemas que afectam a Humanidade no princípio do século XXI são sobejamente conhecidos mas também muitas vezes esquecidos em favor do que são questões menores. Sabemos claramente que temos que lidar urgentemente com os problemas da crise económica e financeira, o aquecimento global, o esgotar dos recursos naturais, a pobreza e o HIV, o terrorismo e os conflitos locais, as disparidades de direitos e condições de vida que persistem ainda hoje entre muitas outras questões que nos afectam a todos.

Eu acredito que os povos um pouco por todo o Mundo começam a estar cientes de que o momento de agir é agora ou será tarde demais. O problema aqui é que os líderes dos povos, claramente afastados da realidade dos seus cidadãos, tardam em compreender e aceitar esta vontade global de mudança. Para tal contribuem também e de forma muito significativa os interesses e “lobbys” económicos, os meios de comunicação social e variadas forças políticas e religiosas. Para estes grandes “lobbys”, aquilo que interessa essencialmente é manter o Mundo na ignorância e obscuridade como forma de perpetuar o seu poder e influência. No entanto, numa sociedade cada vez mais globalizada graças ao fenómeno da Internet e das redes sociais, não só a ignorância perante a realidade é cada vez menor, como a capacidade de mobilização daqueles que pretendem uma mudança é cada vez maior.

A novidade que Barack Obama trouxe à politica e ao Mundo foi uma nova forma de enfrentar os problemas, uma nova forma de comunicar com a sociedade e uma crença inabalável de que uma mudança é possível. Na minha opinião, a vitória de Obama foi uma vitória para humanistas, ambientalistas e activistas de todos os géneros, porque colocou na liderança da maior potência do Mundo alguém com a capacidade de ouvir a vontade dos povos e de agir conforme as necessidades destes, ao contrário do que foi a atitude e governação do seu antecessor. Foi esta capacidade de ruptura e de diferença que levaram à atribuição a Obama do Prémio Nobel da Paz, que apesar de precoce pela falta de obra realizada até então, serviu como forma de pressão e incentivo para que este cumpra as expectativas colocadas sobre ele.

Há que admitir no entanto que há uma grande diferença entre o mito e a realidade e por este motivo se explica a desilusão que surge já entre muitos dos que apoiaram Obama incondicionalmente. No fundo, um só homem não pode mudar o Mundo e certamente não de um dia para o outro. É necessário apoio, tempo e um combate feroz contra aqueles que retardam o progresso da Humanidade. Aqueles que agora criticam Obama deveriam lembrar-se que não é plausível desfazer em um ano e meio o que outro estragou durante oito anos. Deveriam também lembrar-se que não basta ficar sentados em casa à espera que outros resolvam os nossos problemas. Quem tem sede e fome de mudança deve lutar por ela activamente e acreditar que o mais pequeno dos contributos acumulado com os contributos de outros pode de facto fazer a diferença.

Neste sentido, será Obama a melhor esperança da Humanidade? Julgo que não, apesar de considerar que é definitivamente um actor importante neste momento de decisão critíca sobre o nosso futuro e um exemplo a seguir. Para mim, a melhor esperança da Humanidade é a própria Humanidade, que deve compreender que só com o esforço de todos podemos esperar um futuro melhor para todos. Assim, cabe a todos nós ser agentes desta mudança que se pretende, deste movimento da Humanidade para um novo patamar evolutivo, baseado na alteração e renovação das mentalidades.

Eu acredito que é possível. E você?

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Pena de Morte: Uma contradição inaceitável

Diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de Dezembro de 1948, que toda a pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. De todos os direitos consagrados nesta declaração de intenções acredito que o maior de todos é sem sombra de dúvida o direito à vida, um princípio fundamental de reconhecimento do valor e da dignidade de todo e qualquer ser humano, independentemente de raça, religião, estatuto social, origem, género ou qualquer outra condição. Este é um princípio que é defendido e consagrado também ao nível das Constituições da maioria dos estados por todo o mundo, em especial os estados que se definem por democráticos. No entanto, tal como tantos outros direitos que consideramos universais e fundamentais à condição humana, a prática e a realidade diferem consideravelmente dos ideais, daí ser necessário uma luta constante pela consagração real destes princípios na sociedade em que vivemos. Apesar de tudo, este continua a ser um mundo marcado pela disparidade de direitos e condições de vida, o que é facilmente observável se compararmos os países ditos desenvolvidos em relação aos eufemisticamente chamados “países em vias de desenvolvimento”. Não tenhamos dúvidas: a realidade difere do ideal. Só num mundo perfeito e utópico os princípios correspondem exactamente à realidade. A própria democracia é um ideal para o qual se caminha, uma meta final que se pretende atingir, evoluindo nesse sentido mas nunca se concretizando realmente. Neste sentido, e ligando os ideais da democracia e do direito à vida, chegamos ao ponto fulcral deste artigo: a existência de uma contradição inaceitável entre o que é o assumir do direito à vida como valor supremo e a prática da pena de morte. Outros exemplos existirão, mas para mais fácil compreensão focarei essencialmente naquele que se assume como o maior estado democrático do mundo: os Estados Unidos da América. Como grande e influente país que é, marcado por uma base populacional, histórica e cultural baseada na diversidade, os EUA conseguem simultâneamente demarcar-se como uma das mais evoluídas democracias no sentido da participação da população na escolha dos órgãos de soberania, e como um país onde se praticam regularmente violações de Direitos Humanos primários como o direito à vida. É um país onde se pode ver claramente a disparidade entre a realidade e o ideal que se professa, pois enquanto defende o direito à vida e demais Direitos Humanos, pratica em vários dos seus estados a execução da pena de morte. Mesmo admitindo a complexidade dos seus sistemas judicial, governativo e legislativo, e a separação entre o que são competências estatais e federais, esta incongruência não cessa de me espantar. Afinal, como pode um país defender o direito à vida e depois ele próprio ser o responsável pela institucionalização da recusa desse direito? Como pode um estado condenar alguém por homicídio e depois ser ele próprio a autorizar e realizar o mesmo crime sobre aquele que condenaram? Na minha sincera opinião é algo que não faz sentido, uma prática anacronística que não tem fundamento nem legitimidade num Estado de Direito. Defendo como qualquer um a soberania da Lei e a punição daqueles que não a cumprem, mas estabeleço os limites dessa punição naquilo que são considerados tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. O respeito do direito à vida é e deve ser superior a qualquer sentimento de vingança, de “olho por olho”, que nada têm a ver com o cumprimento da Justiça. E por isso defendo que por mais grave que seja o crime cometido a pena de morte nunca deve ser aplicada, pois mesmo que os condenados tenham negado os direitos às suas vítimas, aqueles que criam e aplicam as leis devem permanecer isentos e respeitar o direito à vida daqueles que condenam. Num mundo perfeito e utópico esta questão nem sequer teria lugar. Mas não é esse o mundo em que vivemos. Sendo assim, vejo a privação do direito à liberdade como um mal menor e claramente preferível à privação do direito à vida. Ao menos assim, se mais tarde se descobrir que afinal aqueles que o sistema condena são inocentes, ainda se vai a tempo de corrigir o erro. Com a pena de morte tal não acontece. Uma vez executada, já não há como voltar atrás.

sábado, 19 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

Como todos saberão, faleceu no dia de ontem aos 87 anos o único escritor português laureado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Trata-se da perda de uma das maiores figuras da cultura portuguesa e uma das maiores referências na divulgação de Portugal no mundo.

Em primeiro lugar, gostaria de deixar uma palavra de apoio e condolências à sua família e amigos e expressar a minha empatia perante a sua dôr. A perda de um ente querido é sempre um dos momentos mais difíceis nas nossas vidas e creio que é nestes momentos que palavras de consolo e apoio se tornam mais necessárias. Tendo passado por esta experiência não há muito tempo, sinto-me solidário e o meu coração está com aqueles que foram mais próximos de Saramago e que agora o choram.

Creio que nenhuma vida é mais importante que outra, mas há vidas que marcam a diferença. José Saramago foi uma delas e por isso merece ser homenageado. De homem simples de aldeia, a acérrimo lutador pelas suas convicções, a autor reconhecido mundialmente, José Saramago salientou-se entre os demais pelo seu carácter frontal, muitas vezes polémico, mas sempre verdadeiro consigo mesmo. A sua obra, o legado que deixa para a Humanidade, bem reflectiu o seu ser, a sua personalidade, experiência de vida e a sua visão sobre a condição humana.

Confesso que muitas vezes discordei das suas posições, mas respeito-o pela coragem e frontalidade com que defendeu aquilo que acreditava. Como disse um dia Peter Benenson, fundador da Amnistia Internacional, “posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até à morte para que o possas dizer”. É com este sentimento que recordo Saramago e é com este sentimento que o homenageio, como um homem de convicções fortes, um homem que entendeu o sentido da sua liberdade e ousou exprimi-la, um homem que não se curvou perante o medo de represálias e que se bateu até ao fim pela sua visão das coisas.

Morreu o homem, ficou a obra, eterna recordação daquilo que foi enquanto vivo e eterno legado para as gerações vindouras, e por isto o saúdo.

Adeus e até sempre, José Saramago.