segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Mundial 2010 e a prepotência da FIFA

Com ainda muito futebol para se ver no Mundial 2010 é lamentável que numa fase tão precoce da competição já seja possível concluir que este evento vai ficar definitivamente marcado pela teimosia e prepotência da FIFA. É lamentável ainda que o orgão máximo do futebol mundial continue a permitir a ocorrência de situações vergonhosas que nada beneficiam o desporto. Refiro-me concretamente aos casos das polémicas arbitragens nos jogos Inglaterra – Alemanha e Argentina – México, sem esquecer também as controvérsias que rodeiam a bola oficial e a irritantes vuvuzelas.

Começando pelos jogos deste fim de semana, marcados por erros de arbitragem absurdos com clara influência no decorrer dos acontecimentos, irei ao longo deste artigo demonstrar como a FIFA, concretamente na pessoa do seu presidente, o ultra-conservador e retrógrado Joseph Blatter, tem vindo a recusar qualquer contributo para a evolução positiva do futebol e com isso criado situações claramente injustas e incríveis.

Os casos de arbitragem a que me refiro são um óptimo exemplo do que digo. No jogo Inglaterra-Alemanha, numa situação em que a Alemanha vencia por 2-1, um jogador inglês remata contra a trave levando a bola a bater quase meio metro para lá da linha de baliza e depois sair. Todos viram que foi golo excepto a equipa de arbitragem e os alemães que naturalmente se fizeram de cegos. Perante esta injustiça, a equipa inglesa desmoralizou e acabou por sofrer mais dois golos, fixando o resultado em 4-1 a favor da Alemanha.

No jogo Argentina – México aconteceu uma situação semelhante. Carlos Tevez, em clara situação de fora de jogo, marcou o 1º golo da partida, validado pelo árbitro seguindo a indicação do seu auxiliar perante a incredulidade da equipa mexicana. O mais fantástico é que todo o estádio viu o fora de jogo através dos ecrãs gigantes, incluindo a equipa de arbitragem, mas o certo é que a atribuição do golo se manteve. Novamente, a equipa prejudicada acusou o choque e sofreu logo de seguida um golo oferecido pela sua defesa, claramente incapaz de reagir ao que se tinha passado. O resultado final acabou 3-1 a favor da Argentina. Salvou-se desta vergonha o fantástico 2º golo de Carlos Tevez, talvez o melhor golo do mundial até agora.

Em ambos os jogos uma decisão errada da arbitragem alterou profundamente o decorrer dos acontecimentos e contribuiu para a vitória das equipas beneficiadas. Sem tirar o mérito à Alemanha e à Argentina, é no entanto certo que esta situação os favoreceu. O que para mim é fantástico é que num Mundial transmitido em HD e 3D, com possibilidade de interagir com a emissão das mais variadas formas, com software de análise de jogo avançado que permite registar variadas estatísticas, não haja ainda uma forma de aproveitamento das novas tecnologias que permita combater este género de injustiças e repor a verdade desportiva. E porque é que não há? Porque o senhor Joseph Blatter não quer, porque as tecnologias até existem.

Sinceramente não vejo qual o problema de consultar as repetições televisivas em situações difíceis de decidir. Não digo que se pare o jogo a toda a hora para confirmar decisões visionando as imagens, mas pelo menos em situações de golo ou de grande penalidade isso podia ser feito e na maior parte dos casos, em poucos segundos. Também não compreendo qual a dificuldade de ter um microchip na bola e sensores na baliza para confirmar a existência de um golo, entre outras possibilidades tecnológicas.

O que é certo é que se o futebol não evolui usando as tecnologias ao seu dispor é porque a FIFA não quer. Aliás, quer parecer que a organização não está disposta a aceitar qualquer tipo de sugestão de como reger o futebol. A grande prova é a questão das vuvuzelas, consideradas por especialistas médicos como um perigo para a audição e criticadas por jogadores, treinadores, espectadores e mesmo membros da FIFA como perturbadoras da concentração requerida em alta competição, e que Joseph Blatter se recusa a banir dos estádios. E nem me vou alongar sobre os problemas com a bola oficial, que mais parece uma bola comprada no supermercado da esquina.

A única conclusão a que posso chegar ao considerar estas questões é que tudo isto se passa porque o senhor presidente da FIFA governa o organismo com mão de ferro e é averso a qualquer opinião que não a sua. O mais grave é que aparentemente pretende recandidatar-se ao cargo. Fica aqui a sugestão: reforme-se e deixe o destino do futebol nas mãos de quem o possa levar para a renovação necessária, melhorando o espectáculo e salvaguardando a verdade desportiva.

sábado, 26 de junho de 2010

Barack Obama: A melhor esperança da Humanidade?

Inicio este artigo com um desafio, quem sabe uma provocação. Será Barack Obama a melhor esperança da Humanidade num momento critico da história como é o que vivemos? Por certo esta pergunta poderá parecer descabida a muitos, talvez até ridícula. Talvez muitos se interroguem como pode um só homem assumir tal papel e ser o motor de uma mudança muito necessária na forma como vemos e vivemos o nosso mundo. No entanto, foi com essa atitude que muitos um pouco por todo o mundo encararam a eleição de Barack Obama para o cargo de Presidente dos EUA há cerca de ano e meio.

Apoiado por uma campanha magistralmente regida que soube quebrar com o tradicionalismo eleitoral dos EUA, aproveitar as potencialidades das novas tecnologias e gerar uma massa critíca de apoio de base local motivada e activa, Obama surgiu perante o seu país e até perante o Mundo como uma figura messiânica com a capacidade de mudar o rumo a um barco que caminhava inexoravelmente para o abismo. A sua campanha e a sua figura criaram um mito de tal forma intenso que espalhou uma onda de esperança enorme que aproveitando a supremacia cultural americana se estendeu a todos os cantos do Mundo. Gerou um consenso tão grande em torno de si que levou a comunidade internacional a comemorar a sua vitória como se da eleição de um Presidente do Mundo se tratasse.

Os problemas que afectam a Humanidade no princípio do século XXI são sobejamente conhecidos mas também muitas vezes esquecidos em favor do que são questões menores. Sabemos claramente que temos que lidar urgentemente com os problemas da crise económica e financeira, o aquecimento global, o esgotar dos recursos naturais, a pobreza e o HIV, o terrorismo e os conflitos locais, as disparidades de direitos e condições de vida que persistem ainda hoje entre muitas outras questões que nos afectam a todos.

Eu acredito que os povos um pouco por todo o Mundo começam a estar cientes de que o momento de agir é agora ou será tarde demais. O problema aqui é que os líderes dos povos, claramente afastados da realidade dos seus cidadãos, tardam em compreender e aceitar esta vontade global de mudança. Para tal contribuem também e de forma muito significativa os interesses e “lobbys” económicos, os meios de comunicação social e variadas forças políticas e religiosas. Para estes grandes “lobbys”, aquilo que interessa essencialmente é manter o Mundo na ignorância e obscuridade como forma de perpetuar o seu poder e influência. No entanto, numa sociedade cada vez mais globalizada graças ao fenómeno da Internet e das redes sociais, não só a ignorância perante a realidade é cada vez menor, como a capacidade de mobilização daqueles que pretendem uma mudança é cada vez maior.

A novidade que Barack Obama trouxe à politica e ao Mundo foi uma nova forma de enfrentar os problemas, uma nova forma de comunicar com a sociedade e uma crença inabalável de que uma mudança é possível. Na minha opinião, a vitória de Obama foi uma vitória para humanistas, ambientalistas e activistas de todos os géneros, porque colocou na liderança da maior potência do Mundo alguém com a capacidade de ouvir a vontade dos povos e de agir conforme as necessidades destes, ao contrário do que foi a atitude e governação do seu antecessor. Foi esta capacidade de ruptura e de diferença que levaram à atribuição a Obama do Prémio Nobel da Paz, que apesar de precoce pela falta de obra realizada até então, serviu como forma de pressão e incentivo para que este cumpra as expectativas colocadas sobre ele.

Há que admitir no entanto que há uma grande diferença entre o mito e a realidade e por este motivo se explica a desilusão que surge já entre muitos dos que apoiaram Obama incondicionalmente. No fundo, um só homem não pode mudar o Mundo e certamente não de um dia para o outro. É necessário apoio, tempo e um combate feroz contra aqueles que retardam o progresso da Humanidade. Aqueles que agora criticam Obama deveriam lembrar-se que não é plausível desfazer em um ano e meio o que outro estragou durante oito anos. Deveriam também lembrar-se que não basta ficar sentados em casa à espera que outros resolvam os nossos problemas. Quem tem sede e fome de mudança deve lutar por ela activamente e acreditar que o mais pequeno dos contributos acumulado com os contributos de outros pode de facto fazer a diferença.

Neste sentido, será Obama a melhor esperança da Humanidade? Julgo que não, apesar de considerar que é definitivamente um actor importante neste momento de decisão critíca sobre o nosso futuro e um exemplo a seguir. Para mim, a melhor esperança da Humanidade é a própria Humanidade, que deve compreender que só com o esforço de todos podemos esperar um futuro melhor para todos. Assim, cabe a todos nós ser agentes desta mudança que se pretende, deste movimento da Humanidade para um novo patamar evolutivo, baseado na alteração e renovação das mentalidades.

Eu acredito que é possível. E você?

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Pena de Morte: Uma contradição inaceitável

Diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de Dezembro de 1948, que toda a pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. De todos os direitos consagrados nesta declaração de intenções acredito que o maior de todos é sem sombra de dúvida o direito à vida, um princípio fundamental de reconhecimento do valor e da dignidade de todo e qualquer ser humano, independentemente de raça, religião, estatuto social, origem, género ou qualquer outra condição. Este é um princípio que é defendido e consagrado também ao nível das Constituições da maioria dos estados por todo o mundo, em especial os estados que se definem por democráticos. No entanto, tal como tantos outros direitos que consideramos universais e fundamentais à condição humana, a prática e a realidade diferem consideravelmente dos ideais, daí ser necessário uma luta constante pela consagração real destes princípios na sociedade em que vivemos. Apesar de tudo, este continua a ser um mundo marcado pela disparidade de direitos e condições de vida, o que é facilmente observável se compararmos os países ditos desenvolvidos em relação aos eufemisticamente chamados “países em vias de desenvolvimento”. Não tenhamos dúvidas: a realidade difere do ideal. Só num mundo perfeito e utópico os princípios correspondem exactamente à realidade. A própria democracia é um ideal para o qual se caminha, uma meta final que se pretende atingir, evoluindo nesse sentido mas nunca se concretizando realmente. Neste sentido, e ligando os ideais da democracia e do direito à vida, chegamos ao ponto fulcral deste artigo: a existência de uma contradição inaceitável entre o que é o assumir do direito à vida como valor supremo e a prática da pena de morte. Outros exemplos existirão, mas para mais fácil compreensão focarei essencialmente naquele que se assume como o maior estado democrático do mundo: os Estados Unidos da América. Como grande e influente país que é, marcado por uma base populacional, histórica e cultural baseada na diversidade, os EUA conseguem simultâneamente demarcar-se como uma das mais evoluídas democracias no sentido da participação da população na escolha dos órgãos de soberania, e como um país onde se praticam regularmente violações de Direitos Humanos primários como o direito à vida. É um país onde se pode ver claramente a disparidade entre a realidade e o ideal que se professa, pois enquanto defende o direito à vida e demais Direitos Humanos, pratica em vários dos seus estados a execução da pena de morte. Mesmo admitindo a complexidade dos seus sistemas judicial, governativo e legislativo, e a separação entre o que são competências estatais e federais, esta incongruência não cessa de me espantar. Afinal, como pode um país defender o direito à vida e depois ele próprio ser o responsável pela institucionalização da recusa desse direito? Como pode um estado condenar alguém por homicídio e depois ser ele próprio a autorizar e realizar o mesmo crime sobre aquele que condenaram? Na minha sincera opinião é algo que não faz sentido, uma prática anacronística que não tem fundamento nem legitimidade num Estado de Direito. Defendo como qualquer um a soberania da Lei e a punição daqueles que não a cumprem, mas estabeleço os limites dessa punição naquilo que são considerados tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. O respeito do direito à vida é e deve ser superior a qualquer sentimento de vingança, de “olho por olho”, que nada têm a ver com o cumprimento da Justiça. E por isso defendo que por mais grave que seja o crime cometido a pena de morte nunca deve ser aplicada, pois mesmo que os condenados tenham negado os direitos às suas vítimas, aqueles que criam e aplicam as leis devem permanecer isentos e respeitar o direito à vida daqueles que condenam. Num mundo perfeito e utópico esta questão nem sequer teria lugar. Mas não é esse o mundo em que vivemos. Sendo assim, vejo a privação do direito à liberdade como um mal menor e claramente preferível à privação do direito à vida. Ao menos assim, se mais tarde se descobrir que afinal aqueles que o sistema condena são inocentes, ainda se vai a tempo de corrigir o erro. Com a pena de morte tal não acontece. Uma vez executada, já não há como voltar atrás.

sábado, 19 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

Como todos saberão, faleceu no dia de ontem aos 87 anos o único escritor português laureado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Trata-se da perda de uma das maiores figuras da cultura portuguesa e uma das maiores referências na divulgação de Portugal no mundo.

Em primeiro lugar, gostaria de deixar uma palavra de apoio e condolências à sua família e amigos e expressar a minha empatia perante a sua dôr. A perda de um ente querido é sempre um dos momentos mais difíceis nas nossas vidas e creio que é nestes momentos que palavras de consolo e apoio se tornam mais necessárias. Tendo passado por esta experiência não há muito tempo, sinto-me solidário e o meu coração está com aqueles que foram mais próximos de Saramago e que agora o choram.

Creio que nenhuma vida é mais importante que outra, mas há vidas que marcam a diferença. José Saramago foi uma delas e por isso merece ser homenageado. De homem simples de aldeia, a acérrimo lutador pelas suas convicções, a autor reconhecido mundialmente, José Saramago salientou-se entre os demais pelo seu carácter frontal, muitas vezes polémico, mas sempre verdadeiro consigo mesmo. A sua obra, o legado que deixa para a Humanidade, bem reflectiu o seu ser, a sua personalidade, experiência de vida e a sua visão sobre a condição humana.

Confesso que muitas vezes discordei das suas posições, mas respeito-o pela coragem e frontalidade com que defendeu aquilo que acreditava. Como disse um dia Peter Benenson, fundador da Amnistia Internacional, “posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até à morte para que o possas dizer”. É com este sentimento que recordo Saramago e é com este sentimento que o homenageio, como um homem de convicções fortes, um homem que entendeu o sentido da sua liberdade e ousou exprimi-la, um homem que não se curvou perante o medo de represálias e que se bateu até ao fim pela sua visão das coisas.

Morreu o homem, ficou a obra, eterna recordação daquilo que foi enquanto vivo e eterno legado para as gerações vindouras, e por isto o saúdo.

Adeus e até sempre, José Saramago.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A crise da democracria: a necessidade de combate ao alheamento da juventude

Nota do autor: Este artigo foi publicado por mim no blog da Juventude Socialista do Cartaxo no passado dia 18 de Maio e que volto agora a publicar na íntegra. Devo assinalar que apesar de escrito num contexto político e partidário é perfeitamente aplicável à realidade global da democracia portuguesa, daí ser pertinente a sua publicação. Segue o artigo em si.

A crise da democracria: a necessidade de combate ao alheamento da juventude

"Muito se tem falado nos últimos tempos sobre a crise económica e financeira que tem vindo a afectar o mundo, aquela que é já considerada por muitos como a maior crise desde 1929. Aliás, e particularmente a nível nacional, é já impossível assistir a um telejornal sem ser constantemente bombardeado com informação sobre a crise, especialmente depois dos recentes ataques especulativos à economia portuguesa e ao Euro, que ameaçam piorar uma situação já por si assustadora.

No entanto, e apesar de reconhecer o impacto global e real desta crise em todos os aspectos da vida quotidiana, sou da opinião de que todo o circo mediático em torno destas questões desviam a atenção de problemas estruturais, outras crises se assim o posso dizer, que ao serem resolvidas contribuiriam de forma significativa para um mais eficaz combate à actual conjuntura económica.

Refiro-me concretamente a três questões: o défice de participação cívica e política, a crise de valores e de cidadania, e o crescente descrédito das instituições políticas, financeiras e judiciais. Em suma, tudo factores interligados que contribuem decisivamente para uma crise do modelo de democracia não só a nível nacional, como também a nível mundial. São ainda questões que na minha sincera opinião afectam especialmente a juventude e são aí de especial importância, isto apesar de também reconhecer a transversalidade destes fenómenos em todas as faixas etárias.

Como militante da JS e como jovem, confesso que a interacção que observo entre a maioria da nossa juventude e as questões que acima levanto, assustam-me ainda mais do que a conjuntura económica. Assim sucede pois reconheço, como todos reconhecerão, que o futuro do nosso país e do mundo repousa nas mãos da juventude, que ainda se encontra demasiado alheada dos combates que definirão as suas condições de vida futuras e a concretização das suas expectativas.

Julgo que o que afirmo é notório e visível para qualquer um. É perfeitamente claro um afastamento e um desinteresse por parte de muitos jovens face à realidade política e económica do país e que volto a frisar é de suprema importância para os mesmos, pois é essa realidade que condicionará as suas possibilidades de emprego e realização profissional, a sua realidade familiar e a sua emancipação para a vida adulta.

Para este afastamento e desinteresse, a meu ver, muito têm contribuído os próprios sistemas políticos e financeiros e a classe política em particular. Basta observar com atenção as notícias lançadas diariamente pela comunicação social para compreender o porquê deste alheamento dos jovens e até da sociedade civil em geral. Todos os dias somos confrontados com notícias de alegados casos de prevaricação e corrupção nas instituições fundamentais ao país; podemos observar do conforto das nossas casas a especulação sem escrúpulos praticada nos mercados financeiros que atenta contra todos nós; e podemos observar o baixo nível a que chegou o combate político nacional numa altura em que o interesse nacional dita uma maior concertação e união face às dificuldades.

No passado dia 8 de Maio tive a oportunidade de ouvir o camarada Duarte Cordeiro afirmar num debate sobre emprego promovido pela JS Ribatejo que os jovens hoje não se revêem no discurso político, uma posição com a qual concordo. E é fácil de ver porquê, se fizermos uma análise das forças políticas eleitas para a Assembleia, que farei de seguida com toda a frontalidade.

Começando pela oposição de esquerda é notório que quer o PCP, quer o Bloco de Esquerda se têm pautado por posições extremistas, opondo-se ao Governo minoritário PS em qualquer instância, acusando-o de assumir políticas de direita. Já o CDS e o PSD tentam aproveitar ao máximo a situação delicada do país e do Governo para capitalizar ganhos políticos, deixando para o PS a tomada das medidas duras, impopulares, mas necessárias, salvaguardando as suas posições em preparação das próximas legislativas. Finalmente, temos o PS, que se encontra na duplamente desconfortável posição de ser minoritário e de ter de exigir grandes sacrifícios aos portugueses, queimando o seu capital político e a sua imagem, face à conjuntura de crise nacional.

Na minha opinião, esta conjuntura política além de prejudicar o país, afasta a sociedade das instituições governativas, criando um sentimento de angústia e de impotência que é difícil de ultrapassar. No caso dos jovens em particular isto assume contornos ainda mais graves, estando-se a criar uma geração de descrentes no sistema, uma geração de alheados da realidade do seu país, uma geração sem expectativas ou perspectivas de futuro.

Caros camaradas e amigos, digo que é tempo de mudar o rumo das coisas. Cabe às forças políticas renovar e assumir a responsabilidade de recuperar a confiança das populações e dos jovens em particular. Neste sentido, julgo que a JS tem um papel fundamental a desempenhar, através de um activismo sério e responsável, centrado na realidade e com objectivos concretos e exequíveis.

No Cartaxo, a semente está lançada com o renascer das cinzas da secção local e o bom trabalho desenvolvido em tão pouco tempo. Cabe a todos nós agora trabalhar para ganhar a confiança dos jovens que ainda não partilham a nossa luta, de chamar a nós aqueles que ainda hesitam e desconfiam da política e dar o exemplo de como podemos contribuir para uma mudança positiva quer a nível concelhio, quer a nível nacional.

Viva a Juventude! Viva Portugal!

Artur Caetano

Militante da JS Cartaxo

Licenciado em Relações Internacionais"

Casamento Homossexual: Um pequeno sapo para Cavaco, um grande passo para a igualdade.

Como todos saberão, entrou recentemente em vigor a lei que consagra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, promulgada pelo Sr. Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, após o que foi um longo período de atraso e de espera na tomada de decisão sobre o que é de facto uma matéria sensível. Poderia talvez explicar-se o tempo que o Sr. Presidente demorou a divulgar a sua decisão pela sensibilidade do que estava em causa, mas sou da opinião que tal atraso existiu somente e apenas para servir os interesses pessoais e políticos do mesmo.
É conhecida e ficou aliás bastante clara no discurso em que anunciou a promulgação qual a posição de Cavaco em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tal como largos sectores da sociedade civil portuguesa, quem sabe talvez até a maioria de nós, o Presidente da República opõe-se claramente à associação da figura do casamento à união de casais homossexuais. Na minha opinião, aquilo que está aqui em causa nem se trata sequer da atribuição de direitos a estas uniões, mas sim a uma oposição visceral que advém do facto do casamento estar ainda demasiado ligado à tradição católica, naquele que é suposto ser um país onde se comemora o centenário da República cujo grande mérito foi consagrar a separação entre o Estado e a Igreja. É verdade que num país onde mais de 90% da população se assume como católica que os valores e as posições tomadas pela Igreja Católica assumem grande importância na sociedade. Basta recordar a loucura que foi quando o actual Sumo Pontífice visitou Portugal. Eu próprio me assumo como cristão católico praticante. No entanto, considero que tal posição não me torna escravo subserviente da Igreja que lamentavelmente tarda em perceber que o Mundo evoluiu e que deve evoluir com ele. Há muita coisa que a Igreja professa que não concordo e a discriminação perante a comunidade homossexual é definitivamente uma delas. Não se pode dizer que todos somos filhos de Deus e que devemos amar o próximo e depois discriminar seja quem for. A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é para mim nem uma questão política nem uma questão religiosa, mas uma questão de Direitos Humanos e de Igualdade. È também uma questão de Lei e há muito que o casamento é definido pelo Código Civil como um contrato e como tal não vejo qual a questão de estender essa figura jurídica a este tipo de uniões. Assim, se a Assembleia da República, como órgão legislativo e cumprindo aquilo que era o programa do Governo decidiu a favor da aprovação desta lei, seria a meu ver uma aberração que o Presidente da República vetasse o diploma motivado por razões pessoais que nada têm a ver com o interesse nacional que deve defender. Não vetou mas foi claro que atrasou o processo de promulgação. E atrasou-o pela profunda oposição que tem perante a questão mas também por motivos políticos, o que na minha opinião ficou bastante claro no seu discurso. É preciso lembrar que as eleições presidenciais estão cada vez mais próximas e apesar de este se recusar a comentar sobre a possibilidade de se vir a recandidatar parece evidente a qualquer um que o Presidente já está em pré-campanha e que as suas acções são motivadas neste espírito. Assim, e mostrando a inteligência que lhe é reconhecida, procurou jogar simultâneamente em dois tabuleiros. Por um lado procurou agradar aos portugueses mais conservadores que são contra o casamento homossexual manifestando o seu desagrado e apontando outras vias possíveis de se conceder direitos a estas uniões, e por outro, procurou agradar aos portugueses que são a favor promulgando o diploma invocando o “interesse nacional” de não criar divisões na sociedade num momento tão sensível para o país. Além disso, procurou deixar a impressão de que era forçado a tomar essa decisão pois se tomasse a decisão de vetar, o que aconteceria seria o diploma ser novamente aprovado e aí já não haver possibilidade de o impedir. Na verdade, julgo que para Cavaco e para aqueles que partilham a sua posição, a aprovação deste diploma na sua forma foi o menor dos males. Isto porque a nova lei atribui os direitos do casamento excepto o direito à adopção. Se o objectivo do Presidente fosse impedir esta lei, teve a oportunidade de o fazer quando solicitou a fiscalização da constitucionalidade da mesma, pois segundo conceituados constitucionalistas, a lei a ser inconstitucional seria por não consagrar esse direito. O pior, segundo a perspectiva de quem é contra, é que corria o risco da Assembleia lhe remeter o diploma com esse direito consagrado, o que muitos ainda não estão preparados para aceitar. No fundo, esta lei que entrou em vigor acaba por ser uma grande conquista para a igualdade de direitos, apesar de ser ainda discriminatória quanto ao direito à adopção. No entanto, a comunidade homossexual e aqueles que lutam pela igualdade agradecem por mais um passo importante. Outros combates se seguirão, mas aproveito para saudar aqueles que tiveram a coragem de levar esta questão perante a Assembleia e conseguir esta mudança, ainda que incompleta. Mais uma vez Portugal é pioneiro em questões de Direitos Humanos e espero que assim continue, mesmo que seja necessário alguns de nós terem de “engolir uns sapos” para o progresso de todos.