quinta-feira, 1 de julho de 2010

O estigma da licenciatura: como perder um emprego em segundos

No contexto actual de conjuntura de crise económica e financeira que se vive em todo o Mundo, a questão do emprego, mais concretamente a questão do desemprego, é um assunto que está definitivamente na ordem do dia e que é alvo de grande preocupação pela sociedade. Não sendo economista e julgando ser do conhecimento geral os efeitos nefastos de uma alta taxa de desemprego não só a nível económico mas essencialmente a nível social, tentarei focar este artigo numa questão que me toca muito pessoalmente e que muitas vezes é esquecida nos debates sobre o assunto: o desemprego de longa duração dos licenciados.

Neste sentido, considero que a situação que infelizmente existe muito neste país encontra-se já plenamente clara pelo título deste artigo. Cada vez mais, e contrariando a tendência geral de que com mais qualificações mais fácil é obter um emprego, surge uma minoria de licenciados no desemprego, na qual infelizmente me incluo, para quem o facto de possuir uma licenciatura é aparentemente não uma mais valia mas sim um estigma, que prejudica gravemente a procura activa de emprego. Nestes casos, muitas vezes basta mencionar que se é licenciado para se poder observar uma mudança no semblante de quem entrevista que é claramente indicativa de que o emprego já era. O mesmo se passa quando se envia um curriculum vitae pela internet em que a sensação que tenho é que basta ler nas habilitações “Licenciatura em...” para que o candidato seja imediatamente descartado.

Quero no entanto deixar perfeitamente claro que as pessoas nesta situação são uma minoria, como é fácil de observar pelas estatísticas de emprego e por estudo existentes que referem que os licenciados são os que menos tempo têm de procurar até encontrar um emprego. As pessoas que como eu integram este grupo são na sua maioria pessoas com cursos desajustados ao mercado de trabalho, com cursos de difícil penetração nas suas áreas específicas ou pessoas que completaram o ensino superior tardiamente ou por variadas circunstâncias tiveram mais dificuldade em se empregar. A questão é que agora e especialmente nesta conjuntura de crise existe uma dificuldade acrescida à qual se junta um claro desrespeito do patronato por quem investiu anos da sua vida, muitas vezes com grandes sacrifícios, na sua qualificação profissional.

Muito do que falo aqui advém da minha experiência pessoal assim como de conversas com infelizmente demasiados amigos em situações semelhantes. No meu caso, sendo licenciado em Relações Internacionais, um curso que até não é nada mau, a grande dificuldade é a penetração no mercado de trabalho, sendo as saídas poucas apesar de bastante aliciantes. O que pergunto é, se eu tenho tido tamanhas dificuldades, o que se passará então com quem tem cursos menos reconhecidos?

Infelizmente, e para cada vez mais portugueses, mesmo os que possuem habilitações que à partida garantiriam um emprego fácil, havendo fracas possibilidades de encontrar emprego na sua área de formação, a única solução que resta é recorrer ao emprego menos qualificado. O problema é que é aqui que entra o estigma da licenciatura. Sendo geralmente empregos de baixa remuneração e de baixa exigência técnica e de qualificações, os licenciados partem em desvantagem perante pessoas com menos habilitações pelo simples facto de serem licenciados.

Tendo concorrido a dezenas de empregos deste género nos últimos meses, muitos deles através do site Netemprego.gov, na grande maioria dos casos nem sequer recebi a carta para me apresentar perante a entidade patronal que o IEFP emite nestas situações. Tendo questionado o Centro de Emprego de Santarém acerca da situação, fui informado que muitas vezes eles fazem uma pré-selecção dos candidatos às escassas vagas que vão surgindo, e foi notório nessa comunicação e em contactos pessoais com funcionários do mesmo, que dão clara preferência a quem recebe subsídios e que discriminam quem tem habilitações a mais. Foi-me mesmo dito por uma funcionária do IEFP de Santarém numa apresentação anual que não tinham emprego para mim. É no mínimo caricato. E tenho a certeza que mais existirão em situações semelhantes.

Posso mesmo afirmar que nos últimos dois anos fui convocado apenas três vezes pelo IEFP, uma delas para apresentar uma formação e duas vezes por engano... Se não fosse a minha iniciativa própria de procurar activamente emprego quer por candidaturas espontâneas, quer respondendo a anúncios, bem podia esperar sentado que me resolvessem o problema. E mesmo procurando, se for para empregos menos qualificados sou sempre prejudicado por ser licenciado.

Como muitos da minha geração também eu já pensei em deixar de dizer que sou licenciado para tentar assim encontrar emprego mais facilmente. No entanto, estou convicto que tal estratégia não poderia de modo algum funcionar, pois qualquer patrão poderia facilmente detectar uma omissão de quase dez anos na minha experiência profissional. Ao fim ao cabo, sem a licenciatura, sem os estágios que efectuei e sem as formações do IEFP, parece que andei esse tempo “à sombra da bananeira”. Assim, prefiro não omitir as qualificações que muitos sacrifícios me custaram a obter e declarar em candidaturas a empregos que exigem menos qualificação que não me importo minimamente de trabalhar em áreas que nada têm a ver com a minha formação. Afinal, o que procuro é trabalho e emprego e não um “Dr.” atrás do nome, não obstante continuar a procurar na minha área.

Fica o desabafo e o alerta. Espero que no futuro este tipo de situações possam vir a mudar e que as mentalidades do patronato alcancem que um funcionário bem formado e qualificado é sempre uma mais valia para uma empresa. Até então, a luta continua...

2 comentários:

Anjo Imperfeito disse...

Não podia concordar mais contigo!

Anónimo disse...

:((
Como eu gostava que a realidade fosse diferente...

Maria José Sousa